‘Lembro de ser xingada e de ter apelidos por conta do cabelo e cor de pele’

O Dia da Consciência Negra é celebrado nesta sexta-feira (20), em referência à morte de Zumbi dos Palmares

Por Redação 20/11/2020 - 14:12 hs
Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
‘Lembro de ser xingada e de ter apelidos por conta do cabelo e cor de pele’
Regiane relata sobre os casos de racismo que sofreu ao longo da vida

 

20 de novembro de 1695. Foi nessa data que Zumbi dos Palmares, líder do quilombo de mesmo nome, foi emboscado e morto, traído por um dos seus companheiros. Apesar do desfecho trágico, o líder quilombola entrou para a história nacional como um símbolo da resistência negra contra a escravidão imposta nas fazendas, que só viria a ser abolida no dia 13 de maio de 1888, por um decreto da Princesa Isabel.

Por conta de sua história de vida, o dia da morte de Zumbi foi escolhido como marco para o Dia da Consciência Negra, conforme consta na Lei Federal 12.519, sancionada em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.

Um levantamento sobre o racismo no país apontou que 94% dos brasileiros reconhecem que as pessoas negras têm mais chances de serem abordadas de forma violenta e mortas pela polícia. Os dados são da pesquisa "As Faces do Racismo", feita pelo Instituto Locomotiva a pedido da Central Única de Favelas (CUFA).

Ao Registro Diário, a pedagoga Regiane Maria Sousa, de 44 anos, conta episódios de racismo ocorridos em Registro, no Vale do Ribeira (SP), cidade onde mora.

No ambiente escolar, infelizmente, o racismo ainda se faz presente e é sustentado, muitas vezes, pela falta de representatividade negra no corpo de funcionários e nos materiais didáticos, ou mesmo pela maneira como estão inseridos neste ambiente

Regiane compartilha uma das diversas lembranças de racismo que vivenciou em sala de aula. “Na escola, do primeiro ano até início da adolescência, lembro de ser tratada com diferença por alguns professores e colegas de sala, de ser xingada e de ter apelidos por conta do cabelo e cor de pele. Na verdade, são experiências comuns à quase todos os pretos em idade escolar”, relata.

De acordo com um levantamento do Quero Bolsa, baseado nos dados do Censo Escolar de 2019, 3 em cada 10 professores da Educação Básica são negros - pretos ou pardos. Atualmente, existem cerca de 51,1 milhões de crianças e jovens matriculados nas escolas, desde creches até o Ensino Médio. Desses estudantes, 20 milhões se autodeclaram pardos ou pretos.

Mesmo com a ampliação do acesso à educação nos últimos anos, os negros - que o IBGE conceitua como a soma de pretos e pardos -têm uma frequência escolar mais baixa.

Com relação à quantidade de alunos que concluíram seus estudos nas diferentes etapas de ensino, o abismo é ainda maior. No Ensino Fundamental, 7 em cada 10 alunos pretos finalizaram seus estudos, enquanto entre os alunos brancos, o percentual chega à 87%. 

Já no Ensino Médio, o cenário é outro. Apenas 58,3% dos jovens pretos com 19 anos concluíram a etapa - 17 pontos percentuais abaixo dos estudantes de pele branca. Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro da Educação Básica, divulgado pelo portal Todos Pela Educação.

Racismo na entrevista de emprego

Segundo Regiane, o episódio de racismo que ela sofreu que foi mais marcante em sua vida aconteceu há 22 anos atrás. Ela foi em uma entrevista de emprego e explica que, mesmo sendo a mais qualificada, não foi contratada por “não ter o perfil da empresa”.

“Tinha eu e mais duas concorrentes apenas, e eu preenchia todos os requisitos. Na sala de espera as duas comentaram que estavam com medo por não ter experiência na área e eu disse que tinha. Lembro que uma delas ainda comentou: “Então a vaga já é sua”. Porém, quando eu fui fazer a entrevista, a entrevistadora disse que já tinham preenchido a vaga, dizendo que eu não tinha o perfil da empresa”, conta.

“Na época me senti muito mal, fiquei me sentindo sem saída, porque por mais qualificada que eu fosse eu não poderia jamais mudar minha pele, meus traços, meu cabelo...”, desabafa.

Um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que pessoas pretas ou pardas enfrentam taxas de desocupação e informalidade superiores às de pessoas brancas. Também estão mais presentes nas faixas de pobreza e extrema pobreza e moram com maior frequência em domicílios com algum tipo de inadequação. Também estão mais presentes nas faixas de pobreza e extrema pobreza e moram com maior frequência em domicílios com algum tipo de inadequação.

Um dos principais indicadores do mercado de trabalho, a taxa de desocupação, foi de 9,3% para brancos, e 13,6% para pretos ou pardos em 2019. Entre pessoas ocupadas, o percentual de pretos ou pardos em ocupações informais chegou a 47,4%, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%.

O rendimento-hora de brancos com nível superior era de R$ 33,90, enquanto pretos e pardos com o mesmo nível de instrução ganhavam R$ 23,50 por hora trabalhada. Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 73,6% eram de cor preta ou parda e 25,4% eram brancas.

Já a população ocupada de cor ou raça branca ganhava, em média, 73,4% mais do que a preta ou parda. Em valores, significava uma renda mensal de trabalho de R$ 2.884 frente a R$ 1.663.

Os dados indicam ainda que 45,2 milhões de pessoas residiam no ano passado em 14,2 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação. Dessa população, 13,5 milhões eram de cor branca e 31,3 milhões, pretos ou pardos.

Enfrentando o racismo

A pedagoga destaca que, hoje em dia, não sente que sofre racismo na mesma proporção que antes. Ela alega que sua educação dentro de casa contribuiu muito para que pudesse enfrentar a discriminação seja na rua, no trabalho ou em qualquer lugar.

“Sou funcionária pública, professora de desenvolvimento infantil, sei me colocar frente alguma situação que possa gerar algum mal estar ou desconforto pelo racismo, mas isso também devido à minha postura de saber como agir. Meus pais sempre me empoderaram, no sentido de não me sentir menos ou inferior por conta de atitudes das outras pessoas, me ensinaram a me manter com a cabeça erguida, sempre apoiando e me motivando a continuar meus estudos e que somos sim bonitos do jeitinho que somos. O racismo existe e ele se manifesta de diversas maneiras, mas hoje me sinto segura para me opor e ter um posicionamento diante disso”.

Regiane tem um filho de 23 anos e se baseou em todas as suas vivências para educá-lo e ajudá-lo a enfrentar casos de racismo. “Ele não sentiu os impactos do racismo por eu tê-lo preparado para isso. Passou por alguns, mas tirou de letra”. Segundo Regiane, ela sempre o aconselhou a lembrar da sua história, cultura e ancestralidade com orgulho pela resiliência. “Isso de certa forma o empoderou”, destaca.

Desconstrução

Gilvonete Schimitz do Prado, de 34 anos, é professora e Mestre em Educação. Ela mora na capital paulista, mas viveu até os seus 20 anos na cidade de Miracatu, no Vale do Ribeira. Ao Registro Diário, Gilvonete conta que, hoje, se considera uma mulher negra, apesar de ter uma pele mais clara. Ela revela que essa consciência só veio há cerca cinco anos atrás, após um longo processo de desconstrução, que ainda continua.

A professora explica que começou a aprender sobre essa questão com um colega de trabalho, Antônio da Silva, profossor de História e Doutor em Ciências Sociais. Após diversos diálogos e pesquisas, Gilvonete descobriu sobre o termo colorismo, que é utilizado para denominar as vantagens que o negro de pele mais clara possui contra o de tom mais escuro no posicionamento social, além de outros aspectos físicos que se distanciam das características tradicionais da afrodescendência, como os olhos destacados, os lábios grossos, o nariz largo e o cabelo crespo. 

Vale destaca que isso não quer dizer, porém, que qualquer integrante da comunidade negra esteja livre do racismo, mas que, quando colocado ao lado de um negro de pele escura, o de pele clara possui maior chance de visibilidade e aceitação por estar mais próximo do padrão europeu.

“Eu não tenho nenhuma história de racismo para contar. Pelo menos não que lembre ou que tenha me marcado. Nunca tive olhares estranhos em locais públicos, nunca fui barrada, essas coisas. Não posso dizer que sofri as dificuldades que uma mulher negra passa aqui no Brasil e em outros países. [...] lembro que ele (Antônio) foi a primeira pessoa que me disse que eu era uma mulher negra. Estranhei na hora porque nunca me havia considerado assim antes. Hoje eu vejo a minha avó por exemplo como uma mulher negra, mas durante maior parte da minha vida nunca a tinha visto assim”.

Gilvonete aponta um dos grandes problemas de, na maioria das vezes, muitas pessoas negras de pele clara não se consideradas propriamente negras: “Deve ser porque as crianças negras de pele mais escura desde cedo são informadas da sua racialidade. São marcadas por sua cor e, assim, excluídas de muitos espaços. Isso nunca aconteceu comigo. Inclusive na minha certidão de nascimento minha cor está como branca”, explica.

Ela reitera que nunca sofreu discriminação racial, não de forma direta, porém, ainda sofre alguns conflitos quando pensa no movimento no modo geral. “Às vezes até me sinto em conflito quanto a isso. Nunca sofri discriminação ou racismo de forma direta. Será que é justo dizer que sou uma mulher negra diante de uma mulher retinta que sofre preconceitos todos os dias? Será que essas mulheres diriam que sou uma mulher negra?”.

Nos últimos anos, um dos debates mais intensos e polêmicos dentro da comunidade negra tem sido o colorismo. O assunto vai e volta na medida em que novos fatos que destacam o conceito surgem publicamente. Segundo Gilvonete, ela se depara com este assunto principalmente nas redes sociais. Recém chegada no tema, ela revela que ainda está no processo de aceitação e aprendizagem.

“Eu ouço essa discussão principalmente nas redes sociais. Por isso, por ser um processo mais recente, as vezes sinto dúvidas. Por exemplo, fui participar de um processo seletivo de doutorado recentemente e tinha cotas para negros. Eu fiquei em dúvidas se me incluía nas cotas ou não. Se era justo eu me candidatar por meio das cotas. Senti receio de que depois eu pudesse ser contrariada lá na frente”, conta.

Consciência Negra

Além de homenagear e reconhecer a luta de Zumbi dos Palmares, movimentos negros buscam nesta data evidenciar as desigualdades e violências contra a população preta na sociedade. O nome “Consciência Negra” é o mesmo de 1 movimento anti-apartheid que estava à frente de greves que fragilizaram a política segregacionista na África do Sul, em 1973. O movimento era liderado por ativistas como Steve Biko, morto torturado pela polícia em 1972. E, com o lema “Black is beautiful” –adotado à época do movimento negro dos Estados Unidos–, defendia a autoestima da população negra e visava a incentivar a autovalorização dos negros.

Hoje, no Brasil, na semana e no dia da Consciência Negra, atividades culturais, debates e reflexões sobre as implicações do racismo são realizadas em todo o país. Em alguns Estados (Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), leis locais estabeleceram o dia como feriado.

“O objetivo final da consciência negra é não precisar mais falar mais disso mas pra que isso aconteça precisamos falar e se conscientizar do que é racismo, assumir, que existe. Esse racismo à brasileira, que ideologicamente nega a própria existência do racismo, o que dificulta a falar do problema em si, porque se ele "não existe", as tentativas de solucionar será muito limitada. Pra combater o racismo precisamos debater e discutir com profundidade como ele se dá e se manifesta das mais diversas formas, não negligenciando. Pegar essa desvalorização e negatividade atribuída à tudo que é negro e criar espaços e dar significados positivos, combatendo os efeitos do racismo na sociedade”, desabafa Regiane.

“Acho muito importante discutirmos cada vez mais sobre a questão racial no Brasil, uma vez que somos um país eminentemente negro e não nos reconhecemos assim. Somos um país que se diz não racista, mas que discrimina e mata sua população jovem negra. É só olhar os dados estatísticos para perceber que essa é uma realidade trágica em nosso país. É preciso buscarmos nossas ancestralidades, entender a diversidade de nossas raízes: indígena, africanas e europeias. Me reconhecer uma mulher negra, hoje, também é um ato político. É me incluir na luta e me reconhecer nesse processo histórico de desconstrução de paradigmas e preconceitos.”, finaliza Gilvonete.

 

 














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